
Lembro de quando eu era criança perder horas defronte à TV assistindo aos mais variados desenhos e séries. Depois eu passava horas sozinho na sala de casa imaginando todos os diferentes mundos que eu assistia se misturando na minha imaginação. Por muito tempo eu fui filho único, e por muito tempo também minha timidez não permitia que eu fizesse mais que dois amigos, então eu me deixava levar pelos universos ficcionais que me rodeavam.
Houve um período em que fiquei fissurado com uma série que passava sexta-feira à noite. Era um programa que misturava mistério, terror e mitologia egípcia, e eu esperava a semana inteira para assistir a um novo episódio.
Na segunda, quando eu ia para a escola, corria direto para a única outra pessoa que assistia religiosamente, assim como eu. Aquela série, que hoje não encontro em nenhum streaming, mas vive forte na minha memória, era nosso microcosmo, um espaço que nós dois compartilhávamos e que nos unia.

‘I Saw The Tv Glow’ (2024), segundo longa dirigido por Jane Schoenbrun, é ambientado no final dos anos 1990. O filme acompanha os períodos da pré-adolescência e juventude de Owen, interpretado por Justice Smith, um menino retraído e com quase nenhum amigo. Maddy é a exceção, dois anos mais velha que Owen, e eles se conhecem por acaso na escola.
Maddy, interpretada por Brigette Lundy-Paine, se apresenta como a típica menina que não quer ser como as outras meninas. Depois das aulas, ela usa o laboratório fotográfico da escola para revelar suas fotos. Em um desses momentos, Owen e Maddy se encontram pela primeira vez. Sentada na quadra, completamente vazia, Maddy segura um Guia Oficial de Episódios, um tipo de publicação que era muito comum até a metade dos anos 2000, de uma série chamada The Pink Opaque. A capa atrai a atenção do pequeno Owen, que pergunta que série é aquela. Maddy explica que é um programa que passa no canal infantil antes dos desenhos antigos começarem, bem tarde da noite. Owen lamenta, seus pais não o deixam dormir tarde. Maddy o convida para ir à sua casa assistir.
The Pink Opaque, ou Rosa Opaco em tradução livre, se tornou um elo entre os dois. Owen foi pela primeira vez à casa de Maddy, mentiu para os pais que dormiria na casa de um antigo amigo, e se viu fascinado com a história. Em linhas gerais, Rosa Opaco segue duas amigas, que possuem uma ligação psíquica e precisam derrotar os diversos capangas do Senhor Melancolia, um monstro que vive na Lua e quer levar todas as crianças para a terra da meia-noite.

Owen e Maddy compartilharam esse mundo por 5 temporadas. Antes da season finale, Maddy revela para Owen seu desejo em fugir da cidade, começar a vida em um lugar onde ninguém a conheça, onde ela possa ser quem ela quiser, nas palavras dela: se permanecer ali, com certeza vai acabar morrendo. Owen diz que vai fugir com ela, mas ele desiste. Alguns dias depois da conversa deles, Maddy some, deixando para trás apenas sua televisão queimando no quintal. Coincidência ou não, The Pink Opaque foi cancelado na mesma semana.
‘I Saw The Tv Glow’ pode muito facilmente ser interpretado como uma narrativa queer. Na verdade, o filme de fato é. Jane Schoenbrun é uma pessoa não-binária, e durante todo o filme podemos ver as cores da bandeira trans (azul claro, rosa e branco) nos cenários e na iluminação. Em determinada cena, Maddy se assume lésbica para Owen, e o questiona “Você gosta de garotas? De garotos?”, e, em uma das falas mais marcantes do filme, ele retruca: “Acho que gosto de série de TV… Quando penso nessas coisas… Eu me sinto como se alguém tivesse pegado uma pá e arrancado todas as minhas entranhas. E eu sei que não tem nada ali dentro… mas ainda estou muito nervoso para me abrir e verificar.” Para concluir essa breve analogia com a vivência queer, volto no cânone de The Pink Opaque: as personagens principais são duas garotas, como já mencionado, Tara, uma menina branca de cabelo curto assim como Maddy, e Isabel, uma menina negra e magra, assim como Owen… As personagens de Rosa Opaco são, em outra realidade ou na própria realidade, os personagens de ‘I Saw The TV Glow’.
Ao estilo Matrix (1999), as personagens de ‘I Saw The TV Glow’ estão presas em uma realidade onde suas existências não são aceitas. O seriado que tanto as fascina é a realidade onde elas podem existir nas suas melhores formas. Quando Maddy desaparece no meio do filme deixando para trás apenas a TV em chamas, ela entra no mundo “fictício”, onde finalmente pode ser ela mesma.
No meio do filme, quando Owen já é um adulto, Maddy volta, e tenta fazer com que Owen se lembre de The Pink Opaque, se lembre do universo e, quase implorando, ela pede para que ele se lembre de que nada daquilo era mera ficção. Isabel continua vivendo na realidade da série, mas não por muito tempo, quanto mais Owen permanece na sua realidade, mais sufocada e sem vida Isabel fica. “O tempo não estava certo. Estava indo muito rápido”, é o que Maddy diz sobre permanecer na realidade fora da série. E aqui mora o verdadeiro horror de ‘I Saw The TV Glow’. O Sr. Melancolia é apenas um pano de fundo para o que de fato nos assusta na história. O aterrorizante é a forma como o tempo passa e não nos damos conta, no filme e na vida. Justice Smith interpreta Owen em todas as fases da vida, o tempo passa para o personagem, mas o que vemos na tela é o mesmo ator com pouquíssimas mudanças na aparência. No sentido mais literal possível, um dia após o outro torna-se um fardo, principalmente quando não existimos na nossa verdadeira forma.
E assim a vida de Owen segue, ele vê a mãe morrer para um câncer, ele termina a escola, ele assiste ao pai definhar no sofá depois de um AVC, ele vai todos os dias ao trabalho, volta para casa e assiste à TV sozinho no porão: sua vida passou como “capítulos pulados em um DVD”.
Owen, depois da visita de Maddy, revisita The Pink Opaque, agora disponível em streaming, e, o que antes parecia o melhor seriado do mundo, agora parece só um programa bobo para crianças. O encanto que existia para o pequeno Owen acabou, talvez, com o tempo, a magia que despertava nele quando criança só existia porque fazia com que ele, ou ela, pudesse se imaginar de verdade, como uma menina. Agora adulto e ainda um homem, The Pink Opaque ocupa somente um lugar de nostalgia barata.
Na cena final do filme, quando Owen tem um ataque de pânico no meio do trabalho, ele grita, de forma animalesca, por ajuda. No banheiro, sem ar, ele corta seu peito e aí vemos que não tem nada dentro dele, apenas o estático e sons de uma televisão. O filme acaba com Owen pedindo desculpas a todos do trabalho, mas ninguém nem olha para ele, como se Owen não existisse.
E talvez Owen não exista mesmo, talvez ele fosse só uma carcaça à espera de Isabel, que estava enterrada sem coração no mundo de The Pink Opaque. Em ‘I Saw The TV Glow’, o tempo e a realidade se perdem, se dilatam e interferem na vida dos personagens. Usando de elementos nostálgicos, tanto da vida dos personagens como dos espectadores, o filme constrói um terror fora do óbvio, o medo não vem da frontalidade típica de um filme do gênero, a ideia aqui não é levar susto ou te deixar com medo do escuro, é fazer com que a gente tenha medo da nossa realidade e de como estamos lidando com ela.
Depois de uma certa idade eu e minha amiga perdemos contato, a série que assistíamos, assim como The Pink Opaque, foi cancelada, e aos poucos outros interesses foram tomando contas de nossas vidas. Até hoje me pego lembrando do programa, Mistério de Anúbis, e das noites que passei criando teorias para o próximo episódio. Diferente do Owen, eu consegui derrotar o tempo, pelo menos por enquanto. Ainda posso não estar na minha melhor realidade, mas estou sempre tentando não ser engolido pelo tempo.

